O Dicionário (Não Oficial) do Booktok

Tempo de leitura: 6 min · Foto de capa: coleção pessoal

Se já andaste por aqui, sabes que sou capaz de usar siglas e expressões inglesas com uma naturalidade que, à primeira vista, pode parecer confusa para quem não vive dentro deste universo. Sempre digo "DNF" com tanta facilidade que às vezes me esqueço de que nem toda a gente sabe o que significa e por isso decidi finalmente sentar-me e explicar, com calma, o vocabulário que se foi instalando no meu discurso desde que comecei a andar por este cantinho literário do TikTok.

Este artigo nasce, sobretudo, para quem chegou agora ao Floreal e ainda anda um pouco perdido entre siglas, tropes e expressões que parecem código secreto. Prometo que, no final, vais conseguir seguir qualquer conversa de booktok sem precisar de perguntar "o que é isso?" a meio da frase.


As siglas do dia a dia

Comecemos pelo básico, as siglas que aparecem em quase todas as legendas, comentários e reviews que vês por aí.

DNF significa Did Not Finish, ou seja, um livro que começaste e decidiste não terminar. Já falei longamente sobre este tema num artigo anterior, mas fica aqui o resumo: é o destino mais sensato para os livros que simplesmente não nos prendem, por mais esforço que façamos.

TBR vem de To Be Read, a famosa pilha (ou lista) de livros que ainda temos para ler. Pode ser física, empilhada de forma perigosamente instável na mesa de cabeceira, ou digital, guardada numa aplicação qualquer. A minha, confesso, cresce sempre mais depressa do que aquilo que consigo ler.

CR é Currently Reading, isto é, o livro que estás a ler neste preciso momento. É comum verem-se publicações do género "o meu CR desta semana", sobretudo entre quem gosta de documentar o percurso de leitura.

ARC significa Advance Reader Copy, uma cópia antecipada de um livro, geralmente enviada por editoras a leitores ou influenciadores antes do lançamento oficial, em troca de uma review honesta. Se alguma vez vires alguém a comentar um livro que ainda nem saiu à venda, é bem provável que tenha tido acesso a um ARC.

POV é talvez das siglas mais usadas de todas: Point of View, ou ponto de vista. Refere-se à perspetiva a partir da qual a história é contada. Um livro pode ter um único POV (normalmente o da protagonista) ou vários POVs, alternando entre personagens ao longo dos capítulos, uma técnica que adoro quando bem executada, porque nos permite perceber o que cada personagem sente sem que a outra saiba.

Os finais que todos procuramos

No mundo do romance, há duas siglas que aparecem sempre que alguém quer saber, sem spoilers, como termina um livro: HEA e HFN.

HEA significa Happily Ever After, o final feliz, definitivo, em que o casal fica junto e tudo se resolve. HFN, por sua vez, é Happy For Now: um final positivo, mas não necessariamente permanente, mais comum em séries onde a história de cada casal ainda pode evoluir nos livros seguintes. Confesso que sou team HEA quase sempre, gosto de fechar um livro com a certeza de que aquela história teve um ponto final feliz.

As personagens e os seus papéis

Outra sigla incontornável é FMC, de Female Main Character (personagem feminina principal), e o seu equivalente masculino, MMC, Male Main Character. São termos úteis quando queremos falar de uma personagem sem repetir constantemente "a protagonista" ou "o protagonista".

Também é frequente ouvir falar em love interest, o interesse amoroso da história, e em side character, uma personagem secundária que, por vezes, rouba por completo a atenção do leitor, já me aconteceu mais vezes do que gostaria de admitir.

Os tropes mais amados (e odiados)

Os tropes são os padrões narrativos recorrentes que se repetem de livro para livro, e que cada leitor tende a adorar ou a evitar como a peste. Já devem ter percebido, ao longo dos meus artigos, que o age gap, a diferença de idade significativa entre os protagonistas, é o meu trope de eleição, quase sempre garantia de que vou querer ler o livro.

Outro trope muito popular é o enemies to lovers: duas personagens que começam como rivais, ou até inimigas declaradas, e cujo antagonismo se transforma, ao longo da história, em atração e amor. Quando bem feito, é dos meus preferidos, a tensão inicial torna tudo mais saboroso.

O oposto disto é o friends to lovers, em que duas personagens que já se conhecem e são próximas percebem, a certa altura, que os sentimentos entre elas são mais fortes do que uma simples amizade. Há ainda o slow burn, que descreve um desenvolvimento romântico lento e gradual, construído ao longo de muitos capítulos, em oposição ao insta-love, em que os protagonistas se apaixonam quase instantaneamente, sem grande construção emocional prévia (um trope que, sejamos honestas, raramente me convence).

Por fim, o love triangle, o clássico triângulo amoroso em que a protagonista se vê dividida entre duas opções, um trope que já foi rei do género, mas que hoje em dia divide bastante opiniões.

O nível de "tempero"

Quem acompanha reviews de romance sabe que é frequente falar-se do nível de spice de um livro, ou seja, o quão explícitas são as cenas mais íntimas. Alguns leitores preferem histórias com pouco ou nenhum spice, outros procuram precisamente o oposto. É também comum ver-se o termo smut, usado para descrever conteúdo com cenas sexuais mais explícitas e detalhadas.

Quando um livro opta por não descrever essas cenas em detalhe, mas sugere que aconteceram sem as narrar, diz-se que usa a técnica fade to black, a "câmara" da narrativa afasta-se no momento certo, deixando o resto à imaginação do leitor.

Vocabulário de leitor

Há ainda um conjunto de expressões que não descrevem o livro em si, mas sim a experiência de o ler. O book hangover, por exemplo, é aquela sensação de vazio e desorientação que sentimos depois de terminar um livro que nos marcou profundamente, como se ainda não estivéssemos prontos para regressar à vida real. Já todos passámos por isto, e sinceramente, é dos melhores sinais de que valeu a pena ler aquele livro.

Um buddy read é uma leitura feita em conjunto com outra pessoa, geralmente combinando um ritmo de leitura para depois trocarem impressões, uma forma divertida de tornar a leitura mais social. Já o re-read, como o nome sugere, é simplesmente reler um livro que já conhecemos, seja por nostalgia, seja pela vontade de reviver aquela história.

Por fim, temos o wrap-up, normalmente usado no contexto de vídeos ou publicações mensais em que se resume tudo o que se leu num determinado período e o readathon, um desafio de leitura intensiva, geralmente com prazo definido, em que o objetivo é ler o máximo de livros possível dentro desse período.


Um vocabulário em constante crescimento

Este dicionário está longe de ser exaustivo, o vocabulário do booktok cresce praticamente todos os dias, e novos termos vão surgindo à medida que a comunidade se reinventa. Mas espero que, com esta pequena introdução, consigam navegar por este universo com mais confiança, e talvez até percebam melhor algumas das expressões que uso regularmente por aqui.

Se houver algum termo que ainda vos deixe confusos, digam-me nos comentários, quem sabe não surge, no futuro, uma segunda parte deste dicionário.

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