Tempo de leitura: 8 min · Foto de capa: coleção pessoal
Já vos aconteceu começarem um livro convencidas de que vai ser mais um romance previsível, e acabarem completamente rendidas a meio do caminho?
Foi exatamente isso que se passou comigo com o livro do mês: Sei o Teu Nome, de Rute Dias, uma autora portuguesa.
Conclusões já tiradas: foi um bom livro, não desminto. Dei quatro estrelas, e honestamente, pelo Goodreads, tem uma pontuação excelente para uma autora nacional, o que só reforça que temos por cá talento a sério dentro do género.
Antes de entrar nas minhas impressões, vale a pena falar um pouco da autora. Rute Dias é licenciada em Enfermagem e começou o seu percurso profissional a trabalhar como enfermeira no Reino Unido, antes de se dedicar por completo à criação de conteúdos digitais, onde já reúne uma comunidade bastante alargada. Sei o Teu Nome é o seu romance de estreia, e sinceramente, é difícil de acreditar que estamos perante uma primeira obra, tal a segurança com que a história é construída, sobretudo depois da entrada do segundo ponto de vista, como vou explicar mais à frente.
Sobre o livro
DivulgaçãoPara quem ainda não conhece, a história segue a Diana, uma jovem rica e aparentemente com tudo na vida, mas que carrega o peso de um passado doloroso desde a morte do pai. Ao mudar-se para a universidade em Coimbra, procura liberdade e um recomeço, mas rapidamente cruza o caminho de Alexandre, o típico mulherengo cínico, com um lado sombrio escondido sob o charme. Entre mentiras e uma aliança perigosa que nenhum dos dois esperava, a história vai revelando segredos que ligam as duas famílias de formas que ninguém antecipa.
Um dos aspetos que mais gostei, e que nem tinha mencionado ainda, é a forma como a autora aproveita o cenário de Coimbra e as suas tradições académicas para dar cor à história. Termos como "latada" e outras expressões próprias do mundo universitário português surgem com naturalidade ao longo do livro, e mesmo sem nunca ter vivido essa realidade em primeira mão, senti que conseguia visualizar perfeitamente o ambiente à volta das personagens. É um detalhe pequeno, mas que torna a leitura ainda mais próxima de nós, precisamente por ser um cenário genuinamente português, em vez dos habituais campus americanos que costumamos encontrar neste género de romance.
Confissões da leitura
Vou ser sincera convosco, como sempre: nem tudo foi perfeito, e há vários pontos que quero desenvolver com mais calma.
Não gostei nada do primeiro capítulo, e acho que também não gostei muito do segundo. Foi especialmente por causa da escrita e da forma como a história ia avançando, que simplesmente não me cativou logo de início. Cheguei a duvidar se valeria a pena continuar, o que hoje em dia acho quase engraçado, sabendo tudo o que vinha a seguir.
Foi quando surgiu a perspetiva do Alexandre que senti a história mudar completamente de rumo. Primeiro, pela forma como foi escrito: sinto que foi a primeira vez que li um POV masculino com um pensamento tão vincadamente "macho", a maneira como ele pensava estava mesmo longe de qualquer visão feminista, e isso, curiosamente, tornou tudo mais interessante e verosímil. Segundo, porque senti que os próprios capítulos da Diana se tornaram mais envolventes a partir do momento em que o POV dele entrou em cena, como se um alimentasse o outro.
Acho que esta escolha da autora, de arriscar um narrador masculino tão cru e tão pouco filtrado, é daquelas decisões que podiam correr muito mal, mas que aqui resultaram na perfeição. Não é um Alexandre simpático, nem particularmente respeitoso na forma como pensa sobre as mulheres à sua volta, e ainda assim, é exatamente essa falta de filtro que o torna uma personagem tão credível. Sinto que muitos livros do género tendem a suavizar demasiado os pensamentos das personagens masculinas, tornando-os quase parecidos com o que uma leitora gostaria de ouvir, e aqui isso simplesmente não acontece, o que é, ao mesmo tempo, desconfortável e refrescante.
A química entre os dois é, sem dúvida, um dos pontos altos do livro. Apesar de ser um slow burn, com poucas interações diretas entre eles, cada cena construída entre os dois foi muito bem conseguida, e nunca senti nada forçado ou pouco natural. É desse tipo de química que se sente mesmo na tensão dos silêncios, nas trocas de olhares descritas com cuidado, sem precisar de grandes cenas de ação para nos convencer de que ali existe mesmo alguma coisa a nascer entre os dois.
Já o desenvolvimento da história e do lado amoroso pareceu-me demasiado rápido. Esperava um espaço temporal maior entre os acontecimentos, porque, na minha opinião, teria resultado numa base mais forte e sólida entre o casal principal. E já agora, teria sido interessante se o interesse amoroso do irmão dela pela Yara não tivesse sido revelado logo, teria sido mais giro manter isso em segredo e explorá-lo apenas num segundo livro, mas aí já estou só a sonhar com continuações.
O verdadeiro foco da história acabou por se centrar nele, na revelação sobre o Branco, o traficante, ser o pai do Alexandre. Não ficou só pela história dela, e a relação entre a família dela e a família dele foi muito bem construída, dando à trama uma profundidade que não estava à espera logo no início da leitura.
Sinto que este é, no fundo, o verdadeiro coração do livro, mais até do que o romance entre os dois protagonistas. A forma como as duas famílias, ligadas por um passado que nenhuma delas escolheu, acabam por se tornar peças fundamentais para desvendar tudo o que aconteceu, deu à história uma camada de drama familiar que elevou bastante o meu interesse pela segunda metade do livro.
Ainda assim, achei que os anos que o pai dele ia passar preso eram muito poucos para o que fazia: sete anos. Talvez sejam esses os anos previstos na lei portuguesa para este tipo de crime, não tenho a certeza, mas mesmo assim pareceu-me muito pouco, porque, pela história, ele não só traficava como também matava pessoas, e isso costuma implicar penas bem mais longas do que sete anos.
Sobre a parte final: deram um espaço temporal de sete anos, exatamente os mesmos que o pai do Alexandre, o Branco, ficaria preso. Achei a coincidência com algum objetivo por trás, mas no final não chegou a lado nenhum: não houve encontro entre pai e filho, serviu apenas para o Alexandre pedir a Diana em casamento. Confesso que não percebi bem a escolha destes anos para esse salto temporal, se calhar havia aqui uma oportunidade desperdiçada de fechar melhor esse fio narrativo.
E o título, fará sentido?
Por último, quero falar da escolha do título e da forma como se liga à história. Sinto que não acrescentou nada, e ao mesmo tempo não teve mesmo nada a ver: sim, ele não se lembrava dos nomes das raparigas em geral, só se lembrava do dela, mas e depois? Que relevância teve isso na história? Ele mal a chamava pelo nome, e as vezes em que esteve com outras raparigas foram talvez umas três em que se enganou no nome. Sinto que essa falha de memória não acrescenta nada de essencial à história, e que se podia ter escolhido outro título que fizesse mais sentido, sem fugir tanto daquilo que o livro realmente é, porque parece ter sido esse o pressuposto inicial, mas que, para mim, não resultou.
Talvez o problema esteja precisamente aí: um título que promete um fio condutor emocional forte, ligado à identidade e à memória, mas que na prática se resume a um pormenor quase anedótico, sem grande peso simbólico no resto da narrativa. Prefiro sempre títulos que só fazem sentido total depois de terminarmos o livro, como se fosse a última peça de um puzzle, e infelizmente não foi isso que senti aqui.
Vale a pena ler?
Apesar destas críticas todas, recomendo vivamente este livro, especialmente a quem gosta de romance com um toque de mistério e drama familiar bem construído. É um daqueles casos em que os defeitos não conseguem ofuscar aquilo que a história tem de melhor: personagens complexas, uma química genuína entre os protagonistas, e um enredo que, apesar de algumas escolhas questionáveis, consegue prender do início ao fim, mesmo depois de um arranque que quase me fez desistir.
Fico também com a sensação de que este livro marca muito bem o início de carreira da Rute Dias como escritora. Há decisões arriscadas, como a escolha do POV masculino tão pouco filtrado, que mostram uma autora disposta a fugir do óbvio, e isso, para uma estreia, diz muito sobre o que ainda está para vir.
E vocês, o que acham?
Já leram Sei o Teu Nome? Concordam com alguma destas confissões, ou acham que fui demasiado exigente nalguns pontos? Digam-me nos comentários, estou muito curiosa para saber se sentiram o mesmo em relação ao POV do Alexandre e à escolha do título, e se também acham que a autora tem um futuro brilhante pela frente neste género.