Verity: Do Livro ao Filme

Tempo de leitura: 7 min · Foto de capa: coleção pessoal

Há filmes que nos fazem saltar da cadeira e há filmes que nos fazem sair da sala a discutir com quem foi connosco. Verity conseguiu as duas coisas.

O filme Verity, adaptação do bestseller de Colleen Hoover com Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett, está nos cinemas e já deu muito que falar. Aqui fica a minha comparação entre o livro e o filme: o que muda, o que fica de fora e de que lado estou na grande dúvida da história.

Aviso: este artigo contém spoilers, tanto do livro como do filme. Se ainda não leste nem viste, guarda isto para depois e volta aqui.

Ficha rápida: Verity, livro e filme

  • Livro: Verity, de Colleen Hoover, publicado em 2018
  • Filme: Verity, realizado por Michael Showalter, estreou nos cinemas em outubro de 2026
  • Elenco principal: Anne Hathaway (Verity), Dakota Johnson (Lowen) e Josh Hartnett (Jeremy)

Entre o livro e o filme, e sem grande margem para dúvidas, prefiro o livro. Isto não quer dizer que a adaptação seja má. Quer dizer que os pormenores que o livro oferece são essenciais ao desenvolvimento da história, e que em certos momentos do filme se nota que a equipa não soube bem como passar do papel para o ecrã. A solução, muitas vezes, foi pegar em frases do livro e metê-las no ecrã.

Confesso que li o livro há algum tempo, por isso havia coisas de que já nem me lembrava e que o filme me fez recordar. Em geral, gostei, e o filme mantém-se em grande parte fiel à premissa central do romance. Mas há “mas”, e são vários. Vamos a eles.

O início do filme não é o mesmo do livro

No livro, a história começa quase de imediato com a cena do atropelamento. No filme, essa cena só aparece uns cinco minutos depois do início, porque a película abre com entrevistas a Verity. Pelo que me lembro, esse elemento não existe no livro, e percebo a intenção: apresenta-nos a autora de sucesso antes de conhecermos a casa onde tudo vai acontecer. Ainda assim, tira ao arranque a violência súbita que o livro tem.

Quanto ao local do atropelamento, tinha ideia de que se passava numa cidade mais sossegada, mas no livro é numa rua movimentada de Nova Iorque. Foi uma troca da minha memória, e o filme, nesse ponto, parece respeitar o espírito da cena: Lowen no meio da multidão, o impacto, o sangue por todo o lado.

A casa de banho trocada

Esta diferença é pequena, mas incomoda-me. No livro, Lowen refugia-se na casa de banho das mulheres e é Jeremy quem a segue até lá. No filme, estão na casa de banho dos homens. Pode parecer um pormenor sem importância, mas muda a dinâmica do encontro: no livro, ele invade um espaço que não é o dele, e isso diz alguma coisa sobre a personagem logo ao primeiro contacto. No filme, perde-se esse desconforto subtil.

Os filhos de Verity e o peso das mortes

Tinha a ideia de que eram três filhos e não dois, e confirmo que estava certa: no livro são duas gémeas, Harper e Chastin, e um rapaz, o Crew. No filme, ao reduzirem a família a dois filhos, e ainda por cima fazerem-nos gémeos não idênticos, a morte de Harper perdeu força. E isso tem consequências: no livro, a perda das filhas é uma tragédia tão pesada que ajuda a explicar o estado em que Verity fica, incapacitada e dependente de cuidados. No filme, essa ligação enfraquece e a gravidade da tragédia parece menor do que devia ser.

A ligação entre Lowen e Jeremy

A química entre os dois atores foi bem desenvolvida, apesar de curta, mas não sinto que tenham tido tempo de ecrã suficiente para explicar a atração de um pelo outro. No livro percebe-se muito melhor, porque o processo é gradual. À medida que Lowen lê o manuscrito de Verity, vai-se apaixonando pelo homem que aparece nessas páginas, e é esse mesmo homem que ela vê todos os dias na casa. A leitura alimenta o sentimento e o sentimento contamina a leitura. Esse jogo duplo é uma das grandes forças do livro, e num filme de duas horas ficou apenas esboçado.

O ciúme de Verity

O ciúme que Verity sentia dos filhos em relação ao marido foi muito bem representado, embora tenha havido pouco tempo de ecrã para a vermos a detestar as crianças. Gostava de ter visto mais disso, porque é esse ódio, que no livro se vai revelando de forma quase insuportável, que sustenta a dúvida sobre quem é realmente a vilã.

A cena que me pareceu forçada

Houve uma cena que achei desconfortável, e não pelas razões certas. É o momento em que Lowen está a ver as fotografias dos filhos e Jeremy aparece a perguntar se está tudo bem, já que ela foi viver para casa deles. A meio da conversa, Lowen pergunta-lhe se ele está bem com a morte de Harper, e o ator começa a fazer cara de choro e vira-se de costas. Senti ali uma representação pouco convincente, quase teatral, e não gostei nada. Numa cena que devia ser crucial para percebermos o luto, e talvez as suspeitas sobre Jeremy, o resultado foi estranho.

Team manuscrito ou team carta?

Toda a gente pergunta de que lado estás. Eu digo já: sou team carta.

A razão é simples. Quem leu o capítulo extra, que não foi adaptado para o filme, sabe que o carácter de Jeremy fica muito estranho e deixa motivos de sobra para desconfiança. Sem entrar em demasiados detalhes, nesse capítulo ele tenta afogar o filho que tem com Lowen no lago. Só isto já chega para eu não conseguir ficar do lado dele.

Mas há mais, e é aqui que entra a minha teoria. Se pensarmos bem em toda a história, desde o momento em que Lowen é contratada para continuar a obra de Verity até ao momento em que conta a Jeremy a verdade que descobriu no manuscrito, tudo parece demasiado conveniente. Na minha leitura, foi tudo um estratagema, e o objetivo era matar Verity. Jeremy já conhecia a existência do manuscrito antes de Lowen o encontrar. Já tinha tentado matar a mulher antes e falhara. Tinha lido um dos livros de Lowen antes de a conhecer, e por isso a escolheu: sabia como funcionava a mente dela e achava-a capaz de ajudar a eliminar Verity sem deixar vestígios. Tudo indica que a contratação de Lowen não foi por acaso. Foi uma peça num plano para acabar o que ele não tinha conseguido à primeira.

Pode ser uma interpretação exagerada, e é isso que torna o livro tão bom: cada leitor sai de lá com a sua versão, e todas têm argumentos. O filme, aliás, parece apostar nessa mesma dúvida, já que, segundo se noticiou, também deixa o final em aberto.

O elenco de Verity: Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett

Admito que gostei dos atores escolhidos, mas senti um certo enjoo, porque são sempre os mesmos, e as personagens acabam por ser sempre iguais. Dakota Johnson aparece sempre com o mesmo cabelo e faz sempre cenas de nudez que achei desnecessárias neste filme, sobretudo porque Anne Hathaway não fez nenhuma e, ainda assim, os momentos íntimos continuaram a existir sem essa exposição. Ao mesmo tempo, a interpretação de Dakota é sempre muito parecida, de filme para filme. Anne Hathaway também tem muitas vezes o mesmo cabelo, mas representou muito bem o papel de Verity.

Já a cena do beijo entre Verity e Lowen merece uma nota à parte. Quem leu o livro sabe que ela não existe no original. O realizador revelou que a ideia partiu das próprias atrizes, que sugeriram que, durante o beijo com Jeremy, a pessoa se transformasse em Verity. Percebo o efeito de arrepio que procura, e a verdade é que resulta bem no suspense. Mas é mais um exemplo de uma cena acrescentada para o ecrã, enquanto outras, muito mais importantes para a construção das personagens, ficaram pelo caminho.

Quanto ao ator que faz de Jeremy, Josh Hartnett, não tenho muito a dizer, a não ser que me pareceu extremamente parecido com o ator d’A Criada. Não consegui diferenciá-los. Talvez seja um problema meu, mas a verdade é que, durante grande parte do filme, tive de me lembrar de que estava a ver outra personagem.

O suspense do filme Verity

Se há algo que o filme faz bem é o suspense. As cenas em que Verity aparece do nada ou muda de posição mesmo de frente para Lowen estão muito bem conseguidas. Havia gente na sala de cinema a saltar de susto. É aqui que o filme se aproxima mais do desconforto do livro: a ideia de que a ameaça pode estar em qualquer canto da casa, mesmo quando parece que não está ninguém a olhar.

Veredicto final: vale a pena ver Verity no cinema?

Verity, o filme, vale a pena ver, sobretudo se leste o livro e queres comparar. Tem um bom ritmo de suspense, uma Anne Hathaway convincente e alguns momentos que funcionam muito bem no grande ecrã. Mas perde na profundidade das personagens, na construção da ligação entre Lowen e Jeremy, no peso emocional das mortes e na ambiguidade que torna o livro tão especial.

Quem não leu o livro vai provavelmente gostar do filme como thriller. Quem o leu vai sair da sala com uma lista de pequenas diferenças na cabeça, como eu. E talvez seja esse o melhor elogio que se pode fazer a uma adaptação: faz-nos querer voltar ao original.


E tu, és team manuscrito ou team carta?

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2 comentários em “Verity: Do Livro ao Filme”

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