A Criada: Do Livro ao Filme

Tempo de leitura: 7 min · Foto de capa: coleção pessoal

A Criada (The Housemaid, no original) é um dos thrillers domésticos mais falados dos últimos anos, e a adaptação ao cinema chegou às salas em dezembro de 2025. Foi isso que me levou a escrever este artigo de livro vs filme: será que a história de Freida McFadden sobrevive ao salto do papel para o ecrã?

Sou, confesso, uma leitora que vive sempre com um pé atrás quando um livro de que gosto é anunciado como adaptação para cinema. Já vi demasiadas histórias perderem a alma pelo caminho, seja por más escolhas de argumento, seja por pressa em encaixar tudo num tempo de ecrã limitado. Por isso, fui ver The Housemaid (entre nós, A Criada) com expectativas moderadas, apesar de a Freida McFadden ser uma das autoras que mais me tem acompanhado no género do thriller doméstico. E, sinceramente, saí do cinema agradavelmente surpreendida.

Aviso: este artigo contém spoilers, tanto do livro como do filme. Se ainda não leste nem viste, guarda isto para depois e volta aqui.

Ficha rápida: A Criada, livro e filme

  • Livro: The Housemaid (A Criada), de Freida McFadden, publicado em 2022
  • Filme: The Housemaid, realizado por Paul Feig, estreou nos cinemas em dezembro de 2025
  • Elenco principal: Sydney Sweeney (Millie), Amanda Seyfried (Nina) e Brandon Sklenar (Andrew)

Para quem ainda não conhece a história: acompanhamos Millie, uma jovem com um passado conturbado e um registo criminal que lhe fecha praticamente todas as portas, a aceitar um emprego como empregada interna na luxuosa mansão dos Winchester. O que parece, à partida, a oportunidade perfeita para recomeçar transforma-se rapidamente num jogo de poder, manipulação e segredos, entre Millie, a instável Nina e o marido desta, Andrew: um triângulo que se vai revelando muito mais complexo do que aparenta nas primeiras páginas (ou nos primeiros minutos de filme).

Fidelidade ao livro: o filme respeita a história?

Uma das primeiras coisas que se nota é que o filme não tenta reinventar a história: segue de perto o enredo original, com a Millie a entrar na casa dos Winchester à procura de um recomeço, e a descobrir, pouco a pouco, que os segredos daquela família são bem mais perigosos do que o seu próprio passado. As cenas mais marcantes do livro estão lá, e a estrutura geral da narrativa mantém-se fiel ao espírito do romance.

Claro que houve cortes e, sinceramente, acho que a maior parte deles foi necessária. Um livro tem espaço para desenvolver pormenores, pensamentos internos e subtilezas que, num filme de pouco mais de duas horas, simplesmente não caberiam sem tornar o ritmo arrastado. Algumas reflexões internas da Millie, que no livro ocupam páginas inteiras, foram condensadas em olhares e pequenos gestos no ecrã e resultou bem. Prefiro sempre uma adaptação que corta com inteligência a uma que tenta meter tudo à força e acaba por não respirar.

Um dos aspetos que mais me agradou foi a forma como o filme lida com a construção da desconfiança entre as personagens. No livro, a alternância de perspetivas ajuda-nos a perceber, aos poucos, que nem tudo é o que parece e essa mesma sensação de instabilidade é transmitida no ecrã através da montagem e da forma como a câmara nos mostra (ou esconde) certas reações. Não é fácil traduzir para imagem aquilo que, no papel, é construído através da voz interior das personagens, mas acho que a equipa conseguiu, na maior parte do tempo, manter essa tensão psicológica que torna o livro tão viciante.

Também gostei de ver que personagens secundárias importantes, como o Enzo, o jardineiro que tenta avisar a Millie de que algo não está bem, e a Cece, a filha do casal, mantiveram um papel relevante na trama, mesmo com menos tempo de ecrã do que teriam páginas no livro. É fácil, nestas adaptações, reduzir personagens secundárias a meros acessórios da história principal, e fico contente por isso não ter acontecido aqui.

O elenco de The Housemaid: Amanda Seyfried, Sydney Sweeney e Brandon Sklenar

Sobre o elenco, tenho sentimentos divididos. Gostei bastante da escolha da Amanda Seyfried para a Nina, consegue transmitir aquela ambiguidade constante entre vítima e vilã que torna a personagem tão fascinante no livro, e é, sem dúvida, o ponto alto da interpretação. Há um equilíbrio difícil de alcançar entre parecer frágil e parecer perigosa ao mesmo tempo, e a Seyfried consegue essa dualidade com uma naturalidade impressionante, nunca sabemos, até quase ao final, de que lado da linha ela realmente está.

O Brandon Sklenar como Andrew também cumpre bem o papel, com aquele ar de marido perfeito que esconde mais do que aparenta. É um tipo de personagem que facilmente cairia no exagero: o “homem de família impecável” que se revela, aos poucos, bem menos impecável do que parece, mas a interpretação mantém-se contida o suficiente para que a revelação, quando chega, ainda surpreenda quem já leu o livro.

Já em relação à Sydney Sweeney como Millie, tenho de ser honesta: achei a escolha um bocado enjoativa, não pela interpretação em si, mas pelo facto de ser sempre ela a ser escolhida. 2025 foi, para a atriz, um ano de omnipresença total: cinco filmes lançados, campanhas publicitárias por todo o lado, presença constante nos media ao ponto de a sensação de “já a vi em tudo” começar a pesar mais do que a curiosidade por vê-la num papel novo. Não tenho opinião formada sobre o resto da interpretação dela neste filme em particular, mas confesso que esse cansaço de a ver em todo o lado me acompanhou durante a sessão.

Freida McFadden e a sequela de A Criada

Vale a pena lembrar que a Freida McFadden não é uma escritora qualquer no género do thriller doméstico, é também médica, especializada em lesões cerebrais, e tem já mais de vinte livros publicados, a maior parte deles thrillers psicológicos com o mesmo tipo de reviravoltas constantes que tornaram A Criada um sucesso internacional, com direitos vendidos para dezenas de países. Este livro é, aliás, apenas o primeiro de uma trilogia, e o sucesso do filme já garantiu luz verde para uma sequela, baseada no segundo livro da série, com grande parte do elenco e da equipa a regressar.

Isso deixa-me curiosa e um pouco apreensiva sobre o que vem a seguir. Aliás, já li o segundo livro da trilogia, e confesso que não consegui gostar muito da história: senti que a autora mudou um bocado o rumo amoroso das personagens, de uma forma que não estava nada à espera, e não gostei dessa mudança. Por isso mesmo, fico agora ainda mais curiosa para ver como a sequela vai lidar com essa transição, e se a adaptação vai suavizar, manter ou até intensificar aquilo que, no livro, me deixou tão desconfortável.

Continuar uma história com o mesmo nível de tensão ao longo de várias sequelas é sempre um desafio, tanto em livro como em filme, e só o tempo dirá se a magia se mantém.

Vale a pena ver o filme A Criada ou ler o livro primeiro?

Apesar dessa ressalva, recomendo a adaptação a quem já leu o livro e a quem ainda não leu. Para os primeiros, é interessante ver a história ganhar rosto e voz, mesmo sabendo já onde os segredos residem; para os segundos, funciona como um bom ponto de entrada no universo da Freida McFadden, com a vantagem de mais tarde poderem comparar as duas versões, como fiz eu.

Fico, no entanto, com a sensação de que uma escolha de casting menos óbvia para o papel principal poderia ter tornado este filme ainda mais surpreendente porque a história, essa, está lá toda, fiel e bem contada.


E vocês, o que acharam?

Já viram o filme? Concordam com a minha opinião sobre o elenco, ou acham que fui demasiado dura com a escolha da Sydney Sweeney? Digam-me nos comentários.

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