Literacia Financeira: Os Primeiros Quatro Livros da Minha Jornada

Tempo de leitura: 11 min · Foto de capa: coleção pessoal

Acordar cedo, trabalhar oito horas, perder mais quatro em transportes públicos, e chegar a casa sem energia para mais nada: este é o meu dia a dia, e confesso que já me cansei dele.

No fim de tudo isto, a vida só acontece mesmo ao fim de semana, e foi a pensar nisto, e na vontade genuína de um dia poder respirar com mais calma, que decidi finalmente levar a literacia financeira a sério, um tema que já anda na moda há uns bons anos, mas ao qual nunca tinha dedicado tempo de verdade. O objetivo é simples de dizer, ainda que bem mais difícil de alcançar: conseguir reformar-me mais cedo, sem depender do Estado, e ganhar de volta algum controlo sobre o meu próprio tempo.

Trago hoje quatro livros que me acompanharam nesta jornada inicial. O que vou partilhar não vos vai trazer grande sabedoria financeira, apenas a minha opinião sincera sobre o que achei de cada um, enquanto começo a construir uma visão do mundo financeiro, principalmente do meu próprio.


O que aprendi, ou melhor, o que descobri não saber

A principal descoberta, depois de ler os quatro livros, foi perceber que, no fundo, ainda não sei nada. E porquê, perguntam vocês? Porque é exatamente o que todos os livros dizem: de nada serve ler se não colocarmos em prática. Já comecei a dar os primeiros passos, ainda muito a passinhos de bebé, mas aviso já: nenhum destes livros te vai ensinar a investir na prática, a explicar termos técnicos específicos, ou a indicar os melhores sites e aplicações para começar. O que eles vão dar, isso sim, é uma visão bastante mais clara de como melhorar a tua relação com o dinheiro. Vale a pena salientar que cada livro reflete a visão de um mercado diferente do português, mas o conceito mantém-se sempre igual.

Se és alguém que não consegue controlar os gastos mensais, ao ponto de isso já se tornar um problema psicológico (aí, sinceramente, não te vou conseguir ajudar, porque nesses casos o mais indicado é mesmo procurar apoio psicológico), mas tens força de vontade, ou se já poupas todos os meses sem saber muito bem o que fazer com esse dinheiro, então estes livros são, garanto, um bom ponto de partida.

Vou começar pelo que considero a melhor primeira leitura. Não foi o primeiro que li, mas é o que sugiro a quem está a começar agora.


Livro 1

Deixe de Ser Pobre, de Eduardo Felberg

Capa do livro Deixe de Ser Pobre, de Eduardo FelbergDivulgação
Deixe de Ser PobreEduardo Felberg

Foi o meu livro favorito dos quatro. É o único em que o autor, apesar de já ter alcançado uma vida financeiramente estável e de a saber aproveitar, continua a viver de forma simples, sem ostentação. O livro está muito focado na realidade do mercado brasileiro e da população brasileira, mas os conceitos e sugestões que apresenta podem ser facilmente generalizados para outros contextos.

A grande vantagem deste livro, que não encontrei em nenhum dos outros três, é a leveza e a simplicidade da escrita, cheia de ironia e humor. O autor cita e comenta excertos dos outros três livros que vou mencionar aqui, entre outros, e nota-se logo a diferença na forma como explica os conceitos em comparação com os restantes autores. Se sentes dificuldade em controlar o teu dinheiro, este livro vai dar-te uma base sólida para começar.

Para além de mostrar como e onde podes investir, apresenta vários métodos, vídeos para explorar, e folhas de Excel já feitas e gratuitas para organizares o teu orçamento mensal e as tuas despesas. Também mostra como manter uma vida simples enquanto poupas, ou enquanto atravessas uma fase financeira mais difícil, com vários exemplos do que costuma correr mal com a população brasileira e do que pode ser mais vantajoso em certas situações, como a eterna dúvida entre arrendar ou comprar casa, uma questão sempre polémica.

É por tudo isto que sugiro começar por aqui, caso ainda não tenhas lido nenhum destes quatro livros. E já agora, quem é brasileiro tem ainda mais sorte, porque no final o Eduardo explica exatamente como e onde investir, esclarecendo todos os termos específicos do mercado brasileiro, além dos conceitos gerais de renda fixa e renda variável. Dá também imensas sugestões sobre como conseguir uma fonte de rendimento extra todos os meses, para além do trabalho principal, sempre com o aviso de que este tipo de caminho exige sempre algum esforço da nossa parte, ainda que temporário, se assim o quisermos.


Livro 2

Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. Kiyosaki

Capa do livro Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. KiyosakiDivulgação
Pai Rico, Pai PobreRobert T. Kiyosaki

Este livro traz-nos de volta à realidade e ajuda a perceber o que, no nosso orçamento, rende com facilidade e o que não rende: os nossos ativos e os nossos passivos. Aqui, a visão é a de uma pessoa milionária que teve um mentor quando era mais jovem. O próprio título remete para duas mentalidades, a mente pobre e a mente rica, e foi precisamente com o mentor de mente rica que Robert conseguiu evoluir financeiramente ao longo da vida. Descobriu, aliás, que o segredo do dinheiro estava nos investimentos imobiliários, área onde mantém o foco até hoje.

O que me deixou mais desconfortável durante esta leitura foi perceber como o caminho até esse patamar pode ser extremamente difícil. Para lá chegar, é preciso colocarmo-nos em situações desconfortáveis, ou seja, ultrapassar o medo: o medo de perder dinheiro, o medo de arriscar em algo que possa gerar retorno, o medo de sair da zona de conforto de uma vida estável. O autor resume isto dizendo que existem cinco razões principais que impedem pessoas financeiramente informadas de desenvolverem uma coluna de ativos significativa: o medo, o ceticismo, a preguiça, os maus hábitos e a arrogância. Identifiquei-me em duas: o medo, como já disse, e a preguiça.

Ler este livro está a exigir mesmo muito de mim, porque para além da leitura em si, é preciso estudar tudo o que fica por explicar e colocar verdadeiramente em prática aquilo que ele defende, até porque, como o próprio diz, uma pessoa com um bom "QI financeiro" domina quatro áreas: contabilidade, investimento, compreensão dos mercados e legislação. Senti-me, e ainda me sinto, uma completa iniciante ao ler isto, mas também percebi, ao longo do livro, que não é preciso tirar um curso de contabilidade, gestão ou direito para lá chegar. O que realmente importa é rodearmo-nos de pessoas dessas áreas, ou juntarmo-nos a quem já compreende esta realidade financeira. Para quem prefere andar sozinho por este caminho, vai precisar de se esforçar em dobro.

Fora isso, o conceito do livro está muito bem conseguido: explica de forma clara como começar, dá sugestões práticas, e sobretudo, faz-nos acordar para a vida, que é talvez o mais importante de tudo.


Livro 3

Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv Eker

Capa do livro Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv EkerDivulgação
Os Segredos da Mente MilionáriaT. Harv Eker

Este é o livro certo para quando sentimos a mentalidade mais fraca, ou precisamos de um empurrão para começar algo que andamos a adiar há demasiado tempo, seja por medo de falhar, seja por falta de informação. Confesso que, no início, achei o autor um pouco egocêntrico e egoísta, ainda que ele próprio admita já ter sido assim no passado. Talvez tenha sido por isso mesmo que não consegui livrar-me completamente dessa perceção ao longo da leitura.

É também um livro escrito a partir de uma visão milionária, e para o autor, ou temos uma mente pobre, ou temos uma mente rica, sendo esta última o objetivo a atingir, já que, como ele próprio deixa implícito, se todos tivessem já uma mente rica, os livros dele não venderiam tão bem. Ainda assim, a conclusão central do livro mantém-se válida: se não colocarmos nada em prática, todo o dinheiro investido na compra do livro simplesmente não vai render nada na nossa carteira.

Mas, falando a sério, o livro traz uma reflexão interessante sobre como somos moldados pelo nosso passado: se crescemos com pais que gastavam tudo o que tinham, é provável que herdemos essa tendência, tal como, se crescemos com pais poupados, tendemos a seguir esse exemplo, sem nunca esquecer que cada pessoa é um caso e pode sempre surpreender-nos.

O livro fala também de generosidade, defendendo que, à medida que as pessoas enriquecem, tendem a tornar-se mais generosas, precisamente por terem mais para dar, e concordo plenamente que isso é positivo. No entanto, o autor conta um exemplo pessoal que não consegui engolir tão bem. Pouco depois de se mudar, com a família, para um condomínio de moradias de famílias abastadas, foi convidado por uma dessas famílias para um jantar, com o objetivo de se conhecerem melhor. Juntaram-se mais amigos ao longo da noite, e a conversa acabou por resvalar para um pedido de doação a uma instituição, trazido para a mesa pelo próprio casal anfitrião, com o claro intuito de angariar mais apoiantes. Achei isto, sinceramente, uma falta de consideração: entendo perfeitamente a vontade de angariar apoio para uma boa causa, mas não me parece correto fazê-lo logo no primeiro jantar entre quase desconhecidos. Pareceu-me, no mínimo, interesseiro.

Já quando o autor afirma que os ricos também se tornam pessoas mais simpáticas, também não consegui concordar a cem por cento, porque, mais uma vez, isso depende sempre de pessoa para pessoa.

E com isto termino o meu desabafo sobre este livro em particular.


Livro 4

A Psicologia do Dinheiro, de Morgan Housel

Capa do livro A Psicologia do Dinheiro, de Morgan HouselDivulgação
A Psicologia do DinheiroMorgan Housel

O quarto e último livro que sugiro, não porque tenha adorado, mas porque nem toda a gente é como eu, e há quem se identifique bastante mais com este estilo do que, por exemplo, com o do Eduardo Felberg.

Não tenho grandes palavras para descrever esta leitura: achei um livro bastante maçador para o meu gosto, porque, no fundo, não oferece uma conversa direta sobre o que devemos ou não fazer, ao contrário dos conselhos teóricos / práticos que os outros três livros trazem. Aqui, foi mais uma lição de cultura geral do que propriamente um guia financeiro. Para quem gosta de história, este livro vai ser um verdadeiro deleite, porque o autor recorre a inúmeras analogias com acontecimentos e conceitos do passado para explicar comportamentos financeiros.

Confesso que houve uma analogia de que gostei bastante, logo no início do livro, que compara o dinheiro com a Idade do Gelo. Depois disso, houve três capítulos, o sétimo, o oitavo e o nono, que me fizeram voltar a questionar se estava mesmo a gostar da leitura, precisamente porque o autor parecia mais descontraído e as analogias tornavam-se mais interessantes e menos arrastadas. Infelizmente, logo a seguir a esses capítulos, a leitura voltou a ficar saturante para mim.

Cheguei mesmo a ler alguns comentários no Goodreads para perceber se a sensação era só minha, e confesso que encontrei opiniões bem divididas, praticamente cinquenta por cento para cada lado. Deixo aqui um resumo de dois comentários opostos, para terem uma ideia mais equilibrada dos dois lados desta discussão.

Uma leitora destacou, com sarcasmo, que o autor chega a felicitar o leitor logo no início do capítulo dezanove por ter conseguido chegar tão longe, como se estivesse implícito que a leitura até aí tinha sido uma verdadeira maratona de resistência. Criticou ainda o facto de o autor recorrer a demasiadas histórias apenas para manter o leitor envolvido, sugerindo, já em tom de desabafo, que quem se sentir tão desmotivado como ela pode simplesmente avançar direto para esse mesmo capítulo dezanove, onde encontra um resumo de cada capítulo anterior em poucas frases, poupando assim tempo e paciência. Porque o dinheiro, foi igualmente gasto.

Este comentário mereceu, aliás, uma resposta do próprio autor, e achei muito positivo o facto de ele ter respondido de forma educada e profissional, procurando genuinamente perceber o que poderia ser melhorado no livro. Apesar de me rever bastante nesta crítica mais dura, não sou de todo contra o autor, e identifico-me também com a opinião de baixo, mais focada na qualidade do escritor do que no livro em si.

Um segundo leitor, fã de longa data dos textos do Morgan Housel, explicou que este livro nasceu de um artigo mais longo do autor com o mesmo título, e elogiou a forma concisa mas impactante como ele escreve. Destacou a capacidade de Housel em retirar ensinamentos da história, da psicologia e das finanças, aplicando ao comportamento financeiro do dia a dia, e sublinhou que o verdadeiro objetivo do livro não é apenas terminar a leitura, mas parar e refletir sobre como estas histórias se aplicam ao nosso próprio comportamento com o dinheiro.


Conclusão

Em resumo, o livro que mais amei, sem dúvida nenhuma, foi Deixe de Ser Pobre, do Eduardo Felberg, pelos motivos que já expliquei no início. Achei, aliás, curioso e até um pouco controverso descobrir que o livro financeiro favorito do próprio Felberg é precisamente A Psicologia do Dinheiro, que ele próprio menciona na sua obra, apesar de os estilos de escrita e os objetivos de cada autor serem tão diferentes entre si.

Se estás como eu e queres começar a aprender sobre finanças pessoais de forma rápida e prática, segue a ordem que sugeri ao longo deste artigo. Caso contrário, sente-te à vontade para seguir o caminho que achares mais adequado para ti.

E vocês, o que acham?

Já leram algum destes livros? Qual seria a vossa primeira sugestão para quem está a começar agora nesta jornada da literacia financeira? Digam-me nos comentários.

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