Os DNFs

Tempo de leitura: 7 min · Foto de capa: coleção pessoal

DNF, “Did Not Finish”, é uma sigla que herdei do vocabulário das booktokers, uma comunidade do TikTok que toda a gente adora espiar com fascínio.

A verdade é que, desde que me conheço, nunca fui de abandonar um livro a meio: impunha-me sempre a obrigação de o terminar, ainda que a leitura se revelasse um verdadeiro castigo.

Com o tempo, aprendi a dar mais valor à minha própria paz de espírito e ganhei coragem para recusar aquilo que não me seduz ou que simplesmente não consegue prender-me. Adianto, desde já, que este é um juízo estritamente pessoal, e que raramente coincide com o de outros leitores. O que a mim me desagrada, a ti pode perfeitamente encantar-te, e o inverso é igualmente verdadeiro.

Eis, então, os meus DNFs do momento:


Capa do livro Ajuda-me a Recordar, de Corinne Michaels Divulgação

Ajuda-me a Recordar

de Corinne Michaels

Este livro chegou até mim, inevitavelmente, por via do booktok. Primeiro, seduzida pela beleza da capa; depois, porque a premissa me remeteu de imediato para o filme, e livro, Se Eu Ficar, da Gayle Forman. Na verdade, a única semelhança entre ambos reside no facto de a protagonista ter um acidente e entrar em coma; a partir daí, os enredos seguem caminhos bem distintos.

O conceito é, reconheço, verdadeiramente engenhoso: numa noite, Brielle e o irmão são vítimas de um ataque; ele não sobrevive, e ela emerge do incidente sem qualquer memória dos últimos três anos. Perdida entre o que foi e o que resta, vê-se obrigada a contar com a ajuda de Spencer, o melhor amigo do irmão, por quem sempre nutriu uma paixão silenciosa, para desvendar o que verdadeiramente aconteceu e quem é o responsável.

Cativante, não é? A mim convenceu-me na íntegra a premissa; faltou, porém, à escrita e ao desenvolvimento da trama a densidade necessária para me reter até ao fim.

Capa do livro Atmosphere, de Taylor Jenkins Reid Divulgação

Atmosphere

de Taylor Jenkins Reid

Um queridinho do booktok e, uma vez mais, fui vítima da minha própria influenciabilidade. Desta vez porque o livro anterior que li da autora, Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, ganhou, sem hesitação, cinco estrelas. As expectativas para esta nova leitura estavam, por isso, nas alturas.

Não fui capaz de ultrapassar os primeiros capítulos: um desenvolvimento moroso, um romance que nunca chegava a ganhar tração e que, ainda assim, se ia tornando previsível, apesar de eu continuar sem fazer a mínima ideia de que rumo a narrativa tomaria. É, contudo, um dos raros livros a que desejo genuinamente conceder uma segunda oportunidade, porque desta autora costumam nascer histórias notáveis, como Daisy Jones & The Six. O livro, confesso, ainda não li; a série, essa, mereceu-me sem margem para dúvidas as suas cinco estrelas.

Capa do livro Deep End, de Ali Hazelwood Divulgação

Deep End

de Ali Hazelwood

Mais uma vítima do booktok e do primeiro livro que li da autora, The Love Hypothesis, que me rendeu de imediato. Deep End gerou um enorme burburinho nas redes sociais, o que só contribuiu para elevar as minhas expectativas, mas o romance revelou-se, do princípio ao fim, sem vida. O que existe entre as personagens soa mais a obrigação narrativa do que a atração genúina, e o facto de a Pen, amiga próxima da protagonista, ter mantido previamente uma relação com o mesmo rapaz revela-se, no mínimo, estranho.

Uma decisão que a Pen tomou acertadamente foi terminar essa relação antes de permitir que a amiga se envolvesse com ele. Porque, sejamos honestas, creio que aqui o romance nunca esteve verdadeiramente destinado a florescer, tratou-se, sobretudo, de atração física e tentativas de kinks.

Capa do livro The Wrong Bride, de Catharina Maura Divulgação

The Wrong Bride

de Catharina Maura

Confesso que a este ainda não apliquei formalmente o veredicto de DNF, porque o mantenho na mesinha de cabeceira, reservado para as noites insones. Sei, por experiência própria, que resulta sempre, sobretudo tratando-se de um livro cuja trama não me preocupa perder de vista.

É de tal forma previsível e arrastado que já o considero, mentalmente, um DNF consumado, ou, na melhor das hipóteses, uma leitura digna de meia estrela. A história não oferece ângulo por onde se lhe pegue: percebe-se, logo no primeiro capítulo, que a protagonista nutre uma paixão antiga pelo noivo da irmã, que é também o seu melhor amigo de infância e o seu primeiro e único amor, que acabou, por infortúnio, nos braços errados: os da irmã. O mesmo se repete nos capítulos na perspetiva do melhor amigo, que claramente não sabe admitir que gosta da protagonista: uma falta de comunicação absurda! A partir daqui, adivinha-se sem grande esforço tudo o resto.

O problema é que só me aventurei nesta leitura por ter descoberto outro livro da mesma autora, Dr. Grant, centrado numa relação entre professor e aluna, que continua a fascinar-me. Só que, depois desta experiência, já não tenho a certeza de que queira avançar. Por outro lado, é justo reconhecer que as edições são de uma beleza notável, tanto as estrangeiras como as nacionais.

Capa do livro Wild Love, de Elsie Silver Divulgação

Wild Love

de Elsie Silver

Este DNF nasceu, mais uma vez, de uma review vista no booktok, desta vez do segundo livro da série Rose Hill, composta ao todo por quatro volumes. Chama-se Wild Eyes e centra-se num romance com diferença de idades entre a estrela pop Skylar e Weston, um pai solteiro. É um tropo que sempre me capturou de imediato, o age gap.

Como se tratava de uma série contínua, não quis avançar diretamente para o segundo livro sem antes conhecer o primeiro, e assim comecei por Wild Love, que segue a irmã de Weston, Rosie, e o melhor amigo dele, Ford. Foi, infelizmente, uma péssima decisão. O início é arrastado, o enredo previsível a cada página e os diálogos entre as personagens pouco inspirados, mas o que mais me afastou da leitura foi a presença constante de crianças na trama: logo nos primeiros capítulos surge uma filha caída do céu do Ford, fruto de uma doação de esperma que fizera anos antes, e os dois filhos de Weston. Dois pais, três crianças, e eu sem paciência para nenhuma delas.

Capa do livro The Third Gilmore Girl: A Memoir, de Kelly Bishop Divulgação Capa do livro From Mother and Daughter to Friends: A Memoir, de Nancy Aniston Divulgação

The Third Gilmore Girl & From Mother and Daughter to Friends

de Kelly Bishop e de Nancy Aniston

Estas duas memórias não nasceram do booktok, mas de uma leitura anterior que me marcou profundamente: Friends, Lovers, and the Big Terrible Thing, de Matthew Perry, ao qual dei, sem qualquer hesitação, cinco estrelas. Foi esse livro que me despertou o gosto por memórias ligadas a séries que sempre acompanhei, e por isso, quando encontrei estas duas, uma da atriz que interpretou a avó em Gilmore Girls, outra da mãe de Jennifer Aniston, de Friends, não resisti.

Infelizmente, ambas deixaram-me a desejar, ainda que por razões distintas. The Third Gilmore Girl pareceu-me, simplesmente, monótona, sem o fôlego narrativo capaz de sustentar o interesse ao longo de tantas páginas. Já em relação a From Mother and Daughter to Friends, seria injusto reduzir o problema ao tédio; na verdade, achei-a bastante egocêntrica e permeada por um tom vitimista que me foi afastando cada vez mais da leitura.


Se leste algum destes livros, conta-me: gostaria de conhecer a tua opinião, seja ela igual ou completamente diferente da minha, para perceber o que te fez gostar, ou não, de cada um deles e, quem sabe, encontrar aí motivo para uma segunda oportunidade, por mais remota que pareça.

Aposto que muitos vão querer defender Atmosphere, e confesso que também acredito que esse seja o mais merecedor de uma segunda tentativa. Mas digam-me nos comentários, estou ansiosa por saber.

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