Tempo de leitura: 6 min · Foto de capa: coleção pessoal
Quando é que os livros de adultos começaram a parecer livros de criança?
Reparaste? Entras numa livraria à procura de um bom romance para adultos e, de repente, sentes que estás a olhar para a prateleira infantil. Cores pastel, ilustrações fofinhas, personagens desenhadas como se tivessem saído de uma série animada. É este o fenómeno de que quero falar hoje: a infantilização das capas de romance em Portugal, um fenómeno que tem vindo a crescer nos últimos anos e que, sinceramente, me deixa cada vez mais confusa.
O que está a acontecer às capas
Até há relativamente pouco tempo, os romances para adultos tinham capas que refletiam isso mesmo: fotografias, tipografia elegante, imagens sugestivas mas sóbrias. Hoje em dia, entrou em moda um estilo de ilustração plana, quase de banda desenhada, com cores vivas e personagens de traços simples e arredondados. É bonito, não nego, mas também é um estilo que se aproxima perigosamente do que víamos, há uns anos, em livros para pré-adolescentes.
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Deep End
de Ali HazelwoodUm exemplo perfeito é Deep End, da Ali Hazelwood. A capa apresenta duas figuras estilizadas, com cores suaves e um desenho que poderia perfeitamente ilustrar um conto juvenil sobre desporto. Só que o conteúdo do livro está longe, muito longe, de ser apropriado para um público jovem. É um romance adulto, com cenas explícitas e temas de bondage, e no entanto a capa sugere uma leveza que nada tem a ver com aquilo que se vai encontrar dentro das páginas.
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The Love Hypothesis
de Ali HazelwoodO mesmo acontece com The Love Hypothesis, também da Ali Hazelwood. A capa mostra dois cientistas ilustrados de forma quase caricatural, entre tubos de ensaio e microscópios, com uma paleta de cores que lembra mais um livro sobre a vida na universidade contada a crianças do que um romance recheado de tensão sexual e humor adulto.
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Desde Sempre Tua
de Maria Madalena MateusEm Portugal, este movimento também chegou com força total. Desde Sempre Tua, de Maria Madalena Mateus, é um bom exemplo nacional: uma comédia romântica descrita pela própria editora como sexy e hilariante, mas cuja capa aposta numa ilustração fofa e colorida, típica deste novo padrão visual que tem dominado as prateleiras de romance português.
Porque é que isto acontece
A pergunta óbvia é: porquê? Não tenho uma resposta definitiva, mas tenho teorias, e a mais forte prende-se com o marketing pensado para redes sociais. Estas capas são extremamente instagramáveis. Funcionam bem em miniatura, chamam a atenção num feed cheio de imagens, e criam uma identidade visual reconhecível que ajuda a vender o livro como parte de um género específico, o romance contemporâneo leve, sem que seja preciso ler uma única linha da sinopse.
Há também uma questão de acessibilidade emocional. Estas capas fofas comunicam, de forma quase instantânea, que aquele livro vai ser divertido, leve, uma leitura confortável para os dias mais cinzentos. É uma promessa visual de conforto, e num mercado saturado de opções, essa promessa pode ser exatamente o que faz alguém escolher um livro em vez de outro.
O problema é que esta linguagem visual não deixa espaço para nuance. Um livro pode ser divertido e, ao mesmo tempo, explorar temas bastante mais pesados ou maduros do que a capa sugere, e é aqui que a infantilização se torna, para mim, problemática. Corremos o risco de comprar um livro a pensar que vamos ler algo leve e inocente, e depois deparamo-nos com conteúdo que exigia um aviso mais claro sobre aquilo que realmente nos espera.
Outras autoras, o mesmo padrão
Este fenómeno não se limita à Ali Hazelwood ou à Maria Madalena Mateus. A Emily Henry, uma das autoras mais lidas do género neste momento, também segue esta linha visual em praticamente toda a sua bibliografia. Livros como Beach Read, Book Lovers ou Happy Place apostam sempre em ilustrações coloridas e simpáticas, com personagens estilizadas em cenários de férias ou de praia, transmitindo uma sensação de leveza total, mesmo quando as histórias abordam luto, ansiedade ou relações familiares complicadas.
A Christina Lauren, dupla de autoras responsável por vários romances contemporâneos de sucesso, segue exatamente a mesma estética nas edições mais recentes dos seus livros. O mesmo se pode dizer da Sally Thorne, cujo The Hating Game ganhou, com o passar dos anos, sucessivas reedições cada vez mais próximas deste estilo ilustrado e “fofo”.
Até a Mona Kasten, cujos livros já referi por aqui, tem visto algumas das suas edições mais recentes a adotar este tipo de capa, ainda que a série Again, felizmente, mantenha um design ligeiramente mais sóbrio do que outros títulos do género.
Nem tudo é mau, mas é preciso ter cuidado
Não quero, com isto, dizer que estas capas são feias ou mal feitas. Muitas delas são verdadeiras obras de arte gráfica, com paletas de cores muito bem pensadas e ilustrações cuidadas ao pormenor. O problema não está na qualidade artística, mas sim na mensagem que transmitem, e no desfasamento crescente entre aquilo que a capa promete e aquilo que o livro entrega.
Para quem já anda neste mundo há algum tempo, como eu, é fácil desconfiar e ir procurar informação adicional antes de comprar. Mas para quem está a começar a explorar o género, ou para quem compra um livro apenas porque a capa é bonita, este desfasamento pode resultar em surpresas desagradáveis, sobretudo quando o conteúdo é bem mais explícito ou pesado do que a estética sugere.
Acho que seria interessante que as editoras encontrassem um equilíbrio: capas apelativas e modernas, sim, mas que não escondam por completo a natureza adulta da história. Um pequeno selo, uma nota na contracapa, ou até uma paleta de cores ligeiramente mais madura poderiam ajudar a comunicar melhor o que realmente vamos encontrar dentro do livro.
Curiosamente, alguns leitores mais atentos já começaram a criar as suas próprias soluções para este problema, partilhando nas redes sociais listas e etiquetas de conteúdo antes de recomendarem um livro com este tipo de capa. É uma solução improvisada, mas mostra que a comunidade sente, tanto quanto eu, que falta ali qualquer coisa entre a imagem e a realidade do texto.
E vocês, o que acham?
Sentem também esta tendência quando andam a explorar novidades de romance? Já compraram algum livro convencidos de que seria uma leitura leve, só para descobrir, a meio, que a história era bem mais intensa do que a capa sugeria?
Digam-me nos comentários, estou muito curiosa para saber se esta perceção é só minha ou se há mais gente a notar o mesmo padrão.